Causando assombro

Bom Dia!

Como seria a São Paulo de 1923?
Pelo texto do repórter da Revista da Semana de 1923, seria uma cidade de “causar assombro”.
A cidade, que um ano antes viu ocorrer a famosa “Semana de Arte Moderna”, estava no auge de seu crescimento, econômico – o café enriquecia os fazendeiros e a capital, e populacional – a cidade num períodos de 30 anos, saltou de 64 mil habitantes em 1890, para 580 mil em 1920¹. Para fazer jus a esse crescimento, a cidade se transformava em ritmo acelerado, ritmo esse que prevalece até hoje, onde o filho não consegue nem conhecer a mesma cidade vivida pelo seus pais.

Segue, o texto e a legenda constantes na parte inferior da imagem:

“A recente viagem de nosso director a São Paulo – onde não ia ha alguns annos – deixou-o maravilhado. A grande capital, cujo progresso formidável aturde os que a visitam de anno em anno, não poderia deixar de causar-lhe assombro, a elle que não revia ha algum tempo a cidade do Anhangabahú e Tamanduatehy. A visão grandiosa de São Paulo, desdobrada diante de seu olhar em perspectivas gigantescas, surgiu-lhe a idéa de mostrar ao paiz inteiro, e ao extrangeiro, através da Revista da Semana, o que é o esforço desse povo que herdou a fibra dos Bandeirantes e que deposita tal confiança nas possibilidades de sua grande capital que não se arreceia de applicar fortunas fabulosas na construção dos maiores edifícios da América do Sul.

São Paulo, é em verdade, uma cidade colossal e soberba, onde todas as relisações se tornam possíveis e, sem desfallecimento, se emprehendem. Ainda agora, sob administração do illustre Sr. Pires do Rio, maiores de tornam as suas possibilidades, pela energia inteligente de seu governador, capaz de lhe dar mais impulso ainda, do que esse com que ostenta o seu espantoso surto de progresso.

Transportando, em gravura, para as nossas páginas alguns de seus innumeros edifícios de proporções notáveis, pomos diante dos olhos dos nossos leitores alguma cousa de grandioso e capaz de encher de orgulho e, ao mesmo tempo, damos ensejo, áquelles que não conhecem São Paulo, de poderem calcular o esplendor maravilhoso e empolgante da linda capital.”
1923 - Edificações de São Paulo - Revista da Semana - BN - Rafael Mendes

1. Vista lateral da praça do Patriarcha, onde vão se succedendo os edifícios grandiosos (conhecido como Palacete Lutétia, ainda estão em pé). 2. A Casa Palmares, de propriedade da exma. sra. Condessa Álvares Penteado, á rua Bôa Vista (ainda está lá, porém, cercado por outros edifícios)3. Prédio do sr. Carlos Leoncio de Magalhães, á rua Antonio de Godoy (em construção). É de cimento armado, mede 100 metros de frente por 35 de fundo e te, 14 pavimentos (não conhecia esse edifício, através do Street View, não encontrei esse edifício na rua citada e a imagem parece ser do projeto, não é uma foto como as demais). 4. Prédio á praça do Patriarcha, cujo andar térreo é occupado pela conhecida Casa das Meias, o centro elegante de meias finas de seda, para senhoras e cavalheiros (novamente o Palacete Lutétia). 5. Edifício de propriedade  dos herdeiros do sr. Albuquerque Lins, ex-presidente do Estado de São Paulo, situado na Praça da Sé (o saudoso Palacete Santa Helena, em fase de finalização, abrigou o um dos mais elegantes teatros da cidade, foi demolido na década 1970 para abertura da estação Sé do metrô). 6. Prédio Ramos de Azevedo, de propriedades dos Srs. Ernesto Dias de Castro, Mario de Castro, Arnaldo Dumont Villares, e Ramos de Azevedo Filho. Ao lado destacam-se os grandes depósitos e escriptorios da importante firma atacadista de tecidos srs. Araujo Costa & C, a maior casa, no genero, do Estado de São Paulo. (o prédio ainda existe, fica na rua Boa Vista, os depósitos não existem mais) 7. Prédio á rua Bôa Vista, á entrada do futuro Viaducto Palácio (não sei afirmar se o prédio ainda existe, o viaducto Palácio, deve ser o Boa Vista). 8. Novo edifício do importante Banco do Commercio e Industria de São Paulo, á rua Álvares Penteado, no angulo da Travessa do Commercio. É o prédio bancário mais moderno de São Paulo (acredito que ainda exista). 9. Edifício Caio Prado. O andar térreo é occupado pela casa Fausto, o estabelecimento mais elegante de São Paulo em artigos finos para cavalheiros. (esse ainda existe, na esquina da praça do Patriarca com a Líbero Badaró. Depois de tempos de busca, finalmente descobri o nome desse prédio. Hoje funciona ai, um departamento da prefeitura). 10. Prédio á rua Líbero Badaró. É de cimento armado e tem 13 pavimentos. (o prédio é o Sampaio Moreira, erroneamente chamado de avô dos arranha-céus, antes dele tivemos o Guinle, na rua Direita, com 7 andares. Oficialmente o prédio tem 12 andares). 11. Prédio á Praça da Sé. (ainda está lá, o prédio abrigou os escritórios da empresa de seguros “A Equitativa”, e o prédio da esquina também está lá, porém sem essa pequena torre. A esquina é a Benjamin Constant) 12. O maior prédio fora dos Estados Unidos. Prédio Martinelli. É propriedade do exmo. sr. Gr. Utf. José Martinelli, situado entre a rua São Bento, avenida São João e rua Líbero Badaró. A construção está sendo executada pelos engenheiros Amaral & Simões. (…). O prédio terá vinte andares na rua Líbero Badaró e será destinado a lojas, escriptorios e apartamentos. Para se encontrar bom terreno de fundação, foi necessário levar  as excavações até a profundidade de 15, 40 metros, abaixo do nível da rua São Bento. As fundações e o esqueleto do prédio serão executados em cimento armado, e presentemente é o prédio mais alto que está sendo construído na América do Sul. (é um de nossos cartões postais. A imagem é possivelmente do projeto, já que em 1923 as obras ainda estavam no início. E o prédio foi inaugurado com 26 andares e mais 4 referente a Casa do Comendador, na cobertura, totalizando 30 andares. Foi o prédio mais alto do Brasil até 1947, quando foi inaugurado o Edifício Altino Arantes, a antiga sede do Banespa.)

O recorte da revista foi encontrado e enviado para mim, pelo amigo e excelente pesquisador, Rafael Mendes. Ele o encontrou no acervo da Hemeroteca Digital da Bibiblioteca Nacional.
¹ Informação sobre a população retirada do portal do Histórico Demográfico do Município de São Paulo –
http://sempla.prefeitura.sp.gov.br/historico/   

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7 comentários Adicione o seu

  1. Emocionante as fotos e histórias, desenvolvendo o progresso.

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  2. Ivan Valerot disse:

    O Edifício da foto número 3 (o único em ilustração), caso tenha existido na Rua Antônio de Godoy, não existe mais. Porém, ele é muito semelhante ao conjunto de palacetes existentes no número 286 da Rua Carlos de Souza Nazaré, entre as Ruas 25 de Março e Barão de Duprat. É uma edificação belíssima, que abriga em seu térreo várias lojas de armarinhos e de “1,99”, e ao que parece, muitos apartamentos servem de depósito dessas lojas, infelizmente. O prédio merecia estar mais bem cuidado do que está, com a fachada encoberta por uma massa preta de poluição e vários remendos feitos com cimento para recuperar rebocos que caíram com a falta de conservação adequada.

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  3. Ivan Valerot disse:

    Em tempo, de qualquer forma, o edifício que estou citando tem 6 blocos (o da ilustração número 3 tem 5), e é bem mais baixo que os 14 pavimentos citados (creio que tenha 5 ou 6 andares).

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  4. Natália disse:

    O edifício número 8 é o edifício do Banco do Brasil, a primeira agência de São Paulo. Hoje é o Centro Cultural do Banco do Brasil

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  5. Rafael Vega disse:

    Mais impressionante que as fotos, me pareceu, foi o texto. Impressionante e emocionante a sensação daquele tempo, testemunho do espírito que então dominava a cidade. Uma energia eletrizante que contaminava a população e os empresários, para quem parecia não haver limite para os projetos de expansão!

    Acho que passou do tempo de retomarmos este passado para nos dar impulsão a um futuro menos acanhado e medroso, depois de incorporados os avanços civilizatórios de agora. Se nossos antepassados nos vissem hoje, o que não diriam!

    Parabéns ao site, que belíssimo relato. Agora deixa eu continuar trabalhando para honrar a “herança”! rss..

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  6. Republicou isso em e comentado:

    Boa Tarde!

    Republicando esse ótimo post do ano passado!

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