Memórias do Cambuci

Boa Tarde!

Sempre digo que essas imagens e memórias do bairros são raras. Primeiro porque o Centro da cidade era o mais requisitado para fotografias, álbuns de lembranças e etc. Segundo porque os cronistas mais antigos dos bairros estão desaparecendo (assim como o bairro, que ganha novos prédios, estacionamentos, lojas, a cada segundo).

Fuçando nas imagens que tenho salvas, encontrei essas dias interessante fotos. A primeira é do Morro do Piolho, no bairro do Cambuci e a segunda da rua Espírita. Pesquisando sobre o local, encontrei esse artigo interessante publicado pelo pessoal do Preserva SP¹:

Morro do Piolho e ao centro Rua Fagundese, 1927. Fotógrafo Caio P. Barreto. Acervo Memória Pública, do Arquivo Público do Estado de São Paulo
Morro do Piolho e ao centro Rua Fagundese, 1927. Fotógrafo Caio P. Barreto. Álbum Memória Pública, do Arquivo Público do Estado de São Paulo

“Em uma rua do antigo bairro do Cambuci a religiosidade convive com a malandragem.
São Paulo antigo possui localidades que se tornaram famosas pela influencia de seus moradores que com o passar do tempo deram nome ao lugar.É o caso da Rua Espírita conhecida anteriormente como Caminho do Cambuci. Neste local havia a Chácara do português Antonio Gonçalves, mais conhecido como Batuíra, que ali fundou um conhecido centro espírita. O Caminho do Cambuci cortava a chácara que delimitava com o morro do Piolho conhecido ponto da malandragem paulistana onde músicos e os chamados “desocupados” se encontravam. Com as atividades mediúnicas de Antonio Gonçalves que em 1878 fundou o primeiro jornal de orientação Espírita chamado “Verdade e Luz” a rua com o tempo foi reconhecida como uma rua espírita e hoje é assim conhecida. O morro do piolho, citado inclusive pelo músico e poeta Paulo Vanzolini como ponto da malandragem paulista dos anos quarenta, desapareceu como atividade social e foi encoberto por prédios na constante verticalização da região”.

Rua Espírita. Cambuci, 1927. Fotógrafo Caio P. Barreto. Álbum Memória Pública do Acervo do Arquivo Público de São Paulo.
Rua Espírita. Cambuci, 1927. Fotógrafo Caio P. Barreto. Álbum Memória Pública do Acervo do Arquivo Público de São Paulo.

Sobre Batuíra: 


Um tema que gosto bastante é arte tumular e as histórias das pessoas enterradas nos principais cemitérios da cidade no final do século XIX e início do XX. No Cemitério da Consolação, encontrei o sepulcro de Antonio Gonçalves da Silva, conhecido como Batuíra.

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Pesquisei sobre e ele encontrei essa interessante história²:

António Gonçalves da Silva, conhecido como Batuíra, (Águas Santas, 19 de março de 1839 — São Paulo 22 de janeiro de 1909), foi uma importante personalidade do espiritismo brasileiro.

Nascido em Portugal, numa aldeia próxima à cidade do Porto, emigrou com onze anos de idade para o Brasil, tendo vivido até aos quatorze no Rio de Janeiro, então capital do Império. Posteriormente, mudou-se para Campinas, no interior da então Província de São Paulo, onde trabalhou por alguns anos na agricultura.

O escritor Afonso Schmidt relata:

“Em 1873, por ocasião da terrível epidemia de varíola que assolou a capital da província, ele serviu de médico, de enfermeiro, de pai para flagelados, deu-lhes não apenas o remédio e os desvelos, mas também o pão, o teto e o agasalho. Daí a popularidade de sua figura. Era baixo, entroncado e usava longas barbas que lhe cobriam o peito amplo. Com o tempo, essa barba se fez branca e os amigos diziam que ele era tão bom, que se parecia com o imperador.”
Sabe-se que trabalhou, em 1875, na cidade de São Paulo, como entregador de jornais para o A Província de S. Paulo (cujo exemplar custava 40 réis à época). Nessa época, recebeu dos seus fregueses e amigos a sua alcunha, que nele identificavam uma pessoa ativa e extrovertida, comportamento semelhante ao da narceja, ave pernalta, de vôo rápido, que em tupi recebe o nome de batuíra.

Também nessa altura, iniciou-se no comércio de fumo, fabricando artesanalmente charutos que vendia, o que lhe trouze relativa prosperidade. Com os recursos assim amealhados, adquiriu diversos lotes de terreno no Lavapés, onde ergueu a sua residência e, ao lado, uma rua particular com casas, que alugava aos mais humildes, e que atualmente se denomina rua Espírita.

GEDSC DIGITAL CAMERAPartidário da causa abolicionista, nela militou ativamente ao lado de personalidades como Luís Gama e Antônio Bento, protegendo inúmeros escravos que se evadiam rumo à liberdade. Muitos encontravam abrigo em sua própria residência, de lá só saindo de posse da respectiva Carta de Alforria.

Ao abraçar a Doutrina Espírita, dedicou-se de corpo e alma ao socorro aos aflitos e necessitados. Aos doentes, atendia com recursos de homeopatia, oferecidos muitas vezes em sua própria residência, um misto de albergue, asilo, hospital, farmácia e de escola, onde difundia os princípios espíritas. Acerca desse comportamento, afirmava-se à época que “um bando de aleijados vivia com ele”. Quem chegasse à casa, fosse quem fosse, tinha cama, mesa e medicação.

Em 25 de maio de 1890 fundou o jornal Verdade e Luz, que ele próprio compunha a imprimia, destinado à divulgação doutrinária, e que alcançava, à época, a notável tiragem média de cinco mil exemplares. Além disso, proferia conferências espíritas em diversas cidades, criando grupos espíritas em São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Fundou a Livraria e Editora Espírita, onde era impressor e tipógrafo.

Casou-se em primeiras núpcias com Brandina Maria de Jesus, com quem teve um filho, Joaquim Gonçalves Batuíra. Em segundas núpcias, teve outro filho, que faleceu com apenas doze anos de idade.

Abriu mão de seus bens em favor dos necessitados, com destaque para a doação de sua casa, no Lavapés, para servir como sede da instituição beneficente “Verdade e Luz”. Referindo-se ao seu desencarne, Afonso Schimidt escreveu: “Batuíra faleceu a 22 de janeiro de 1909, São Paulo inteiro comoveu-se com seu desaparecimento. Que idade tinha? Nem ele mesmo sabia. Mas o seu nome ficou por aí, como um clarão de bondade, de doçura, de delicadeza do céu, dessas que vão fazendo cada vez mais raras num mundo velho, sem porteira…”

Fontes:

¹ http://www.preservasp.org.br/06_informativo_cotidiano.html
² http://geb.org.br/quem-somos/historia/batuira e http://pt.wikipedia.org/wiki/Batu%C3%ADra_%28esp%C3%ADrita%29

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1 comentário Adicione o seu

  1. marco machado disse:

    …será que é daí que vem a música do Adoniran Barbosa…O Morro do Piolho..saudoso Adoniran…

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