Paixão Fatal: A história de Nenê Romano e Moacyr Piza

1923 - Nene Romano - Saudade Sampa
Nenê Romano, fotografada em 1923. A imagem é um recorte da revista Marreta.

 

Março é considerado o mês das mulheres, e aproveitando esse ganho, vamos contar uma história trágica, envolvendo Romilda Machiaverni, também conhecida como Olga Romano e celebrizada como Nenê Romano, famosa cortesã da São Paulo dos anos 1920 e Moacyr de Toledo Piza, renomado advogado e oriundo de família abastada e influente nos meios sociais da cidade.

Tomaremos emprestado para contar essa história, trechos de um dos capítulos do ótimo livro “A Capital da Vertigem”, de Roberto Pompeu de Toledo (textos em itálico). E para ilustrar e trazer a atmosfera da época, pesquisei nos periódicos, as notícias que foram publicadas sobre o caso.

Vamos lá! 

(…) Romilda Machiaverni nasceu em 1897 e chegou aos dois anos ao Brasil. Foi morar, claro, no Brás. Como Carmela, começou a vida como costureira. Aos dezesseis anos obteve emprego melhor, o de camareira no Hotel Bela Vista, na rua Boa Vista. Ali a atenção dos ricos hóspedes despertou-a para o grande capital que tinha nas mãos (e não apenas nas mãos): a “formosura raras vezes vista”, como escreveu um jornal contemporâneo. Não tarda, e ela põe tal capital a rodar. Do hotel salta para as pensões de luxo. Cada vez mais festejada, cada vez mais requisitada. Das pensões salta para casa só dela, para receber com mais comodidade e mais privacidade os clientes. E estes eram figuras importantes — empresários, fazendeiros, jornalistas, políticos. Dizia-se que entre os favorecidos incluía-se o próprio Washington Luís. Romilda Machiaverni a essa altura não era mais Romilda Machiaverni, nome que denunciava a origem na terceira classe dos navios e nos acanhados sobrados, quando não nos cortiços do Brás. Era agora Nenê Romano, apelido muito mais apropriado a uma estrela da noite, a quem a generosidade dos patrocinadores cobria de joias e de roupas caras. Tal qual ocorria com as discípulas de madame Pommery, alcançou, em sua especificidade, o reconhecimento que lhe abria as portas para seletos ambientes, como o Theatro Municipal e o Trianon. Não lhe faltavam cavalheiros de fino trato para acolitá-la, nessas e em outras ocasiões.¹

Em 1918 vamos encontrá-la no corso da avenida Paulista, onde se dava o carnaval chique da cidade, em princípio — mas só em princípio — reservado às “famílias”. Lá ia a bela Nenê, num carro aberto, talvez sentada no capô ou no paralama, quando recebe o bilhete de um admirador. Talvez também lhe tenha sido enviado um beijo, de longe (as versões divergem). E talvez o admirador não fosse apenas um admirador, mas um favorecido (de novo, há divergências). Importa é que tão trivial e fugaz episódio trouxe graves consequências. O moço estava prometido a uma das filhas da fazendeira Iria Alves Ferreira Junqueira, de Ribeirão Preto. E a viúva Iria, que tocava com mão de ferro e nervos de aço a fortuna e o prestígio da família, não era de perdoar deslizes, nem que fossem triviais e fugazes. Meses depois, quando chegava em casa, Nenê Romano foi atacada por três homens. Dois a imobilizaram. O terceiro avançou com uma navalha. A intenção era desfigurar-lhe o rosto, tal qual se costumava fazer nas escravas com as quais os patrões se haviam engraçado. O golpe foi mal dado, e pegou-lhe o pescoço. Perpetrava-se a vingança de Iria Junqueira, a implacável coronel de saias.

1918 - 1. NENE ROMANO - O VIL CRIME DA BENTO DE FREITAS - O Combate, Ed. 1022, 07.10.1918
Notícia sobre o atentado contra Nenê Romano publicado em 07 de outubro de 1918.²

Durante quase todo mês de outubro, o jornal O Combate noticía sobre o ocorrido. O que me chamou a atenção foi o fato de outro jornal, esse um dos mais consolidados e de maior circulação na cidade, O Correio Paulistano, nenhuma nota ou sequer uma linha sobre o caso foi publicada.

1918 - 2. NENE ROMANO - O VIL CRIME DA BENTO DE FREITAS - O Combate, Ed. 1023, 08.10.1918
O vil crime da rua Bento de Freitas, notícia publicada em 08 de outubro de 1918³

As demais notícias dos dias seguintes, normalmente são as mesmas: cobranças por parte do jornal, repetição de notícias e tem edições em que o nome de Nenê aparece em destaque, mas de relevante mesmo, só uma notinha no rodapé, ou seja, a imprensa sendo imprensa pra vender mais.(clique nas miniaturas para abrir e salve no seu computador para uma melhor leitura)

Nenhuma outra notícia é veícula nos próximos anos. Somente em 1920 é que “novas” informações passam a ser publicadas e com direito a capa e destaque na edição:

1920 - 8. NENE ROMANO - NOVAS INVESTIGAÇÕES - O Combate, Ed. 1570, 17.08.1920
Novas investigações, o caso de Nenê Romano continua tendo repercursão na imprensa e na cidade. Publicado em 17 de agosto de 1920.8

 

1920 - 10. NENE ROMANO - ESCLARECIDA AGRESSÃO - O Combate, Ed. 1576, 24.08.1920
Depois de dois anos, finalmente é esclarecida a agressão a Nenê Romano. Publicado na edição de 24 de agosto de 1920.9

 

1923 - Moacyr de Toledo Piza - Saudade Sampa
O advogado Moacyr de Toledo Piza, s/d. Autoria desconhecida.

 

Nenê procurou reparação na Justiça. Mas a Justiça tarda, e quando há gente importante como acusada costuma falhar. Malsucedida nas primeiras tentativas de levar o processo adiante, resolve procurar um novo advogado. Eis que entra em cena nesta história outro interessante personagem da São Paulo de então —Moacyr de Toledo Piza.

É bem possível que Nenê Romano já o conhecesse das lides boêmias. O fato é que Moacyr Piza foi o advogado escolhido para retomar o processo. Daí ao romance foi um passo. Aos encantos de Nenê, resistir quem havia-de? À inteligência, ao prestígio, à juventude e à boa aparência do advogado, que mocinha ítalo-paulista haveria de se manter incólume?

 

 

1920 - 9. NENE ROMANO - FOTO - Saindo do Fórum - O Combate, Ed. 1593, 14.09.1920
Uma pena que a qualidade das fotos e da imprensa na época seja sofrível. Nenê Romano saindo do fórum,. Notícia publicada em 14 de setembro de 1920.10

O caso teria durado uns dois anos, durante os quais Nenê Romano renunciou à vida antiga em favor da exclusividade ao amante. Num certo ponto, ela começou a dar mostras de cansaço. Moacyr tornou-se mais ciumento do que já era. Ensimesmou-se a ponto de não mais procurar os amigos. Nenê enfim cansou de vez, ainda mais que as restrições do namoro lhe tornavam difícil manter a antiga vida de luxo e riqueza, e encerrou o caso. Moacyr não se conformava. No dia 25 de outubro de 1923, na tentativa de uma última cartada, ele corre à rua Timbiras, na qual a antiga amante habita o número 18-A. Encontra-a, por volta das nove da noite, na calçada, na iminência de subir a um táxi. Moacyr diz que precisa falar-lhe. Ela concorda em que ele suba ao tá-xi. Conversarão no caminho. Moacyr ordena ao motorista que vagueie pelas ruas sem destino. Assim o casal terá mais tempo para conversar. O táxi entra aqui, dobra acolá, e enfim embica na avenida Angélica. O motorista percebe que o casal discute, no banco de trás. À altura da esquina da rua Sergipe, junto à praça Buenos Aires, ouvem-se três tiros. Moacyr disparara contra Nenê, que caiu morta no chão do carro. Em seguida Moacyr atira contra o próprio peito, e cai sobre o corpo da amada. O motorista segue, desacorçoado, para o pátio do Colégio, onde ficam a polícia central e, junto a ela, a Assistência, capaz de prestar os socorros que ainda fossem possíveis. Moacyr vinha gemendo pelo caminho, mas o que o sustentava era apenas um fiapo de vida. Morreu antes de o carro chegar ao destino. Tinha 32 anos. Nenê Romano tinha 26. Morreu com um chapéu de seda, onde espetara um alfinete de metal branco. Trazia, segundo constou do relatório policial, uma bolsa de miçanga forrada de seda, e dentro da bolsa uma carteira com espelho e arminho, contendo uma moeda de 100 réis.

1923 - 14. NENE ROMANO - Assassinato - O Combate, Ed. 2517 26.10.1923 - HDBN
Nenê Romano, assassinada pelo Dr. Moacyr Piza, que em seguida se matou. Publicado na edição de 26 de outubro de 1923.11
1923 - 15. NENE ROMANO - PAIXÃO FATAL - O Combate, Ed. 2518 27.10.1923 - HDBN
A nota do jornal, citada no texto do livro. Publicado no dia 27 de outubro de 1923.12

 

Curiosa foi a reação dos diferentes jornais. Os vespertinos A Folha da Noite e O Combate descreveram em detalhes o crime seguido de suicídio. O Estado de S. Paulo noticiou a morte de Moacyr Piza sem dedicar uma linha às circunstâncias em que isso ocorrera. Em compensação, no dia seguinte, preencheu cerradas três colunas e meia com os nomes ilustres das pessoas que compareceram ao velório, na rua General Jardim, e ao enterro no cemitério da Consolação, bem como a relação das pessoas que enviaram coroas de flores (com as respectivas inscrições) e telegramas.  

A culpa pelo ocorrido, o jornal O Combate não teve dúvidas, cabia a Nenê Romano, “a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa”. Sob um longo título na primeira página (“O doutor Moacyr Piza, num momento irrefletido, assassina a tiros de revólver a conhecida mundana Nenê Romano e suicida-se em seguida”), o jornal assim sintetizou sua versão do episódio: “Nenê Romano, flor da rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuía o sorriso que acendia os mais perigosos fogos da paixão tonitruante e louca; o mais completo símbolo da leviandade e da perversidade mulíebre, conseguiu, com a sugestão da mulher que faz sofrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte”.

O túmulo de Moacyr Piza no cemitério da Consolação, para sempre dos mais visitados, mereceu uma bonita escultura, de autoria de Francisco Leopoldo e Silva, irmão do arcebispo d. Duarte. Um perfil de mulher nua, retorcido à maneira de um ponto de interrogação, remete aos mistérios da paixão. 

 

 

 

Moacyr Piza 1 cópia
Base tumular em granito suportando uma imponente escultura expressionista em granito natural polido. Representa a figura de uma mulher sentada em toda a sua nudez, com as pernas cruzadas. Com a cabeça curvada junto ao braço direito, apóia o cotovelo sobre o joelho do mesmo lado. A mão esquerda mantém apoiada no solo, ligeiramente atrás do corpo. Próximo ao pé da perna direita há uma esfera. Essa composição escultural foi feita de tal maneira que representa um ponto de interrogação, por isso a obra é intitulada: “Interrogação”. Foto de Felipe Alexandre Herculano / Sampa Histórica

Nenê Romano não se sabe se foi enterrada no cemitério do Araçá ou da Quarta Parada (as versões, de novo, divergem), nem se mereceu uma mísera coroa de flores. Teve o consolo de ser enterrada num vestido novo, que encomendara para a temporada lírica do Municipal.

1923 - 16. NENE ROMANO - O ENTERRO - O Combate, Ed. 2519 29.10.1923 - HDBN
Três dias depois da tragédia, é noticiado o enterro de Nenê Romano. Contrariando o que foi dito pelo autor citado nessa publicação, consta que a última morada de Nenê tenha sido mesmo o Cemitério do Araçá, publicado em 29 de outubro de 1923.
1924 - 17. NENE ROMANO - O TRISTE FIM - O Combate, Ed. 2701, 11.06.1924 - HDBN
O laudo conclusivo. Ela é simplesmente a “mundana” e ele tudo, menos assassino.

 


E porque citei o mês da mulher no início e contei essa história?

Porque essa história vem a tona em um momento em que os movimentos pela igualdade e os direitos das mulheres vem crescendo e que a luta se mostra cada vez mais árdua e intensa, tendo em vista a crescente onda de violência contra a mulher na sociedade atual.

O que chama a atenção, é que mesmo em 1923, onde um caso como de Nenê Romano e Moacyr Piza foi um escândalo, a sociedade da época parecia aceitar tranquilamente a atitude do assassino, justificando o ato pelo simples fato de Nenê ser uma cortesã!  

Nos demais recortes que encontrei, além da história que é repetida a exaustão, o jornal é sempre imparcial, sempre fazendo parecer que o crime foi uma tragédia pra ele e não para ela. Suas qualidade são sempre enaltecidas, como se ele fosse um herói “que tombou em campo de batalha”. Enquanto a ela, nem o seu verdadeiro papel na situação, que é o de vítima, sequer é mencionado, ela nunca é tratada como uma vítima.
Pode-se supor que a influência da família tenha silenciado os jornais, ou até mesmo a polícia, que chegou a prender e investigar o motorista do taxi, acusando-o de ter assassinado o casal.

O assassino é sepultado com honras, homenagens  e com um jazigo-monumento no Cemitério da Consolação e além de tudo, pasmem, ele também nomeia uma rua!. Não sei qual é a data da nomeação, no Dicionário de Ruas de São Paulo, não consta essa informação, mas a rua existe e fica entre as Alamedas Itú e Jaú. 

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Detalhe da placa, com o nome corrigido para as regras atuais, a homenagem ao assassino. Foto de Gilberto Calixo Rios
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Detalhe da rua Moacir Piza, que a homenageia a assassino de Nenê Romano. Foto de Gilberto Calixo Rios

 

 

 

 

 

 

 

 

Quase um século depois temos o nosso próprio “Moacyr Piza” (e já tivemos muitos outros nesse intervalo), mais conhecido como “goleiro Bruno”. Outro assassino que assim como Moacyr, sai de seu crime, não totalmente impune, mas aclamado como um pop-star com fãs, selfies e diversas propostas de emprego e no futuro ainda é capaz de ser agraciado com uma convocação para a seleção. Mudamos de século, de costumes, de personagens, mas a sociedade não mudou… continua machista, preconceituosa e punindo o oprimido e louvando o opressor.

Que essa publicação possa chamar a atenção de casos como esses, e que através de movimentos organizados, se possa excluir da malha urbana da cidade, o nome de  Moacyr Piza e de muitos outros e que esses entrem para história como realmente são: criminosos. E que possa também, mesmo 94 anos depois, trazer pelo menos justiça para Nenê Romano e muitas outras “Nenês” desse país.

Fontes:

¹ Texto resumido da obra A Capital da Vertigem, de Roberto Pompeu de toledo, páginas 253; 261 a 265.

Todos os recortes  de jornal foram retirados da publicação O Combate, que faz parte do acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

² Edição 1022, 07.10.1918
³ Edição 1023, 08.10.1918
4  Edição 1025, Pg.3, 10.10.1918
5  Edição 1027, Capa, 14.10.1918
6  Edição
 1027, Pg.3, 14.10.1918
7  Edição1035, 24.10.1918
8  Edição1570, 17.08.1920
9
 Edição 1576, 24.08.1920
10
 Edição 1593, 14.09.1920
11
 Edição 2517 26.10.1923
12
 Edição 2518 27.10.1923 
13
 Edição 2519 29.10.1923

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Bernardo disse:

    Tudo bem, Felipe. Também tenho interesse sobre a vida de Romilda. Pelo jeito trilhamos os mesmos lugares, para obter informações. Mas, não posso de deixar de fazer uma observação, sobre o trecho do livro, do Roberto Toledo, onde diz que ela era italiana. Nesse caso posso negar com certeza que a informação está errada. Existem outras coisas que também são estranhas. Se quiser discutir sobre isso, tens meu e-mail. Abraço

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    1. Olá Bernardo, tudo bem.
      Gostaria sim de saber mais sobre esses dados e quem sabe, contribuir também com sua pesquisa.
      Pode me enviar um e-mail no feherculano@gmail.com?
      Um abraço

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